sábado, 9 de maio de 2015

A Queima é dos Amigos!

Por esta altura, no ano passado, eu já pensava tentava imaginar como me sentiria agora, quando regressasse à Queima de Coimbra como ex-estudante, já formada. Achava que seria estranho e bonito, usar a capa negra aos ombros sem o resto do traje. 
Ontem foi assim, voltei para uma jantarada com aqueles amigos mais especiais, na noite da Queima "dedicada" à Faculdade de Medicina. Há coisas que nunca mudam nesta altura de Maio, desde o trânsito e a dificuldade para estacionar, as ruas cheias de grupos de amigos, os restaurantes lotados, os trajes que saem do guarda-fatos. Para nós também parecia nada ter mudado. Estamos meios perdidos pelos vários hospitais do país, desde a Feira, Aveiro, Coimbra e Lisboa, mas parece que nunca nos separamos. Ficamos na conversa por horas, rimos com aquela vontade que vem de dentro, e fomos beber uma cervejinha naquele frenético ambiente da baixa da cidade. Não sei se foi por estar tão confortável com eles ou se pelo significado por si só, mas foi realmente maravilhoso voltar à nossa Coimbra e reviver os tempos de faculdade, não muito longínquos por enquanto.

quinta-feira, 30 de abril de 2015

Last Chance

Se me perguntarem qual a principal vantagem de se ter Ano Comum, eu vou dizer sem pensar muito: "última chance para descobrires o que realmente queres ser antes da derradeira escolha..."

Após a grande desilusão de não atingir aquela gigantesca nota a que me tinha proposto e que julgava ser essencial para ser feliz o resto da minha vidinha, a minha mente altamente direcionada para a racionalização decidiu traçar uma estratégia alternativa, um plano B urgente. Cheia de dúvidas e medos, com um certo pessimismo, confesso, e alguma melancolia, comecei o Ano Comum por estágios/especialidades que eram para mim hipótese de ingresso e deixei a ideia de voltar a repetir o exame num plano C.

Psiquiatria sempre esteve no meu "Top 2", num jogo de forças flutuante com a Gin/Obs, que ora ganhava poder, ora era esbatido pelos medos, por isso não poderia deixar de repetir.
Estive um mês a fazer estágio em Aveiro em Psiquiatria e não houve um único dia que não sentisse a felicidade e a realização que procurava...a tal que achava que tinha perdido. 
De repente, quando me apercebi, pensar em Gin/Obs, nomeadamente que não iria fazer essa especialidade, já não me causava nem mágoa, nem inveja, nem tristeza. Dava por mim a sorrir no carro ao vir embora, a pensar no quão gratificante tinha sido aquele dia e poderiam ser os restantes nesta profissão...
Ainda nem o estágio ia a meio e um dia respondi naturalmente a alguém que me perguntava se estava a gostar da experiência: "Estou a gostar tanto que quero mesmo ser Psiquiatra!" 
E voilá, essa felicidade em que andava, o entusiasmo no olhar que o meu marido notava ser diferente quando lhe contava dos casos que tinha visto, verbalizou-se e ganhou vontade própria.

Um dia qualquer de manhã, estávamos eu e o meu tutor do estágio a falar e ele diz-me: "quando for fazer a sua escolha, não se esqueça da Psiquiatria...tem olho para isto...". Hoje ao me despedir dele reforçou: "estou a sua espera no próximo ano...". Sorri profundamente grata pelo reconhecimento que aquela frase representava. Fiz aqueles quilómetros para casa feliz.

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Tu não vais conseguir salvar todas as pessoas que encontrares...

Apesar dos poucos dias de avanço, Abril tem-se mostrado um mês prometedor para mim. Se já desconfiava que seria bom fazer estágio de Psiquiatria para tirar as minhas dúvidas interiores, agora tenho total certeza.
Desde o dia 1 que é assim, lá vou eu rumo a Aveiro todos os dias de manhã no meu carrito. Nota-se logo a diferença de ter de acordar bastante mais cedo do que nos tempos em que ia para o Centro de Saúde, que era a 5 minutos a pé de minha casa.
Por causa do fim de semana prolongado de Páscoa, ainda só somei 3 dias de estágio, mas gostei mesmo muito de todos. A equipa é jovem e acolheu-me bem e me parece que todos têm boa saúde mental... =P

Na quinta-feira estive de urgência das 8h às 20h - foi a minha primeira urgência como médica (porque no estágio de MGF não se faz urgência) e devo confessar que me agradou imenso, tanto os casos a que assisti, como essa nova sensação de se ser médico e não o estudante, num serviço de urgências.
A certa altura do dia, num momento mais parado, lancei ao especialista com quem estava uma das perguntas que mais me incomoda sobre a Psiquiatria:
- "A noção que tenho é que a Psiquiatria não cura ninguém...os doentes acabam sempre por voltar com recaídas... Isso ao final de algum tempo, não acaba por ser desmotivante para o médico?"
E ele respondeu:
-"Se reparares bem, são muito poucas as especialidades que realmente curam...A grande maioria dos médicos controla sintomas e impede ou atrasa a progressão das doenças, dá qualidade de vida, faz a prevenção das mesmas e resolve agudizações." E continuou: "Não sinto essa desmotivação a que te referes...o importante é não ter demasiadas expectativas, nem na Psiquiatria nem noutra especialidade qualquer. Tu não vais conseguir salvar todas as pessoas que encontrares..."

"Tu não vais conseguir salvar todas as pessoas que encontrares..."
 Eis um lado da Medicina é que é totalmente diferente daquilo que habitualmente tanto médicos como população espera dela, pela Esperança que a ciência consiga mais e melhor todos os dias. Eu sou uma pessoa esperançosa por natureza, que espera sempre o melhor dos outros, que acha que amanhã poderão mudar... Mas também sabia que há determinadas pessoas de quem é difícil esperar essa tal mudança. Distúrbios de personalidade, dependências de uma vida... E doía pensar que iria encontrar essa realidade de forma mais acentuada no mundo dos doentes Psiquiátricos. Acho que costumava pensar nisso do lado sombrio, pelo medo provavelmente de um dia deixar de me sentir realizada. Aquele especialista, com as suas palavras certeiras e repletas de anos de experiência, mostrou-me o lado mais positivo... A Psiquiatria de facto é fundamental na vida de muitas pessoas e famílias, dá qualidade de vida a muitos doentes e esse é o lado positivo a que de deve dar valor. Acho que só agora entendo de verdade o porquê de um amigo meu quer ser Oncologista.


quinta-feira, 2 de abril de 2015

Crónicas e Reflexões de uma Interna em MGF - O que nem às paredes confesso




         A senhora tinha ido ao consultório para mostrar uma radiografia do ombro e umas análises. Estava tudo bem, e ela pareceu ficar contente com a notícia. Depois pergunta no seu tom natural:
         “Senhora doutora, gostava que me dissesse para que servem estes medicamentos” – enquanto tirava da sua mala uma saca com 3 caixas. Eu, inocente e excessivamente atenciosa neste caso, ia começar a explicar para que servia cada um deles, quando o médico de família da senhora interrompe a minha voz no momento certo e perspicazmente pergunta:
         “De quem são esses medicamentos?”
         “São do meu filho…” Sorriu nervosa. Sabia que tinha sido apanhada. Estava a falar de um filho adulto e completamente independente, que também era utente do mesmo médico.
         “Minha senhora, o que eu prescrevo ao seu filho é entre mim e ele e a isto chamamos ‘sigilo médico’. Se quiser saber o que são e para que servem, deve conversar abertamente com ele e expor-lhe a sua preocupação.” Mantinha um sorriso atencioso enquanto falava com aquela mãe preocupada, mas não poderia deixar de a repreender.
         Foi uma lição gigantesca. Sigilo médico não é nenhuma novidade para mim. Foi tema muito debatido nas aulas de Ética Médica do 4º ano e prometi guardar os segredos de cada doente mesmo depois da sua morte no Juramento de Hipócrates, que não foi assim há tanto tempo.
         A partir desse momento, que felizmente para mim ocorreu logo no início do estágio, criei um radar de perguntas maliciosas. Já não vou na cantiga da velhinha que diz como quem não quer nada que viu na sala de espera o Sr. Folano ou o Sr. Cicrano, e depois acrescenta num tom disfarçado: “O que veio cá ele fazer?”. Ou então: “Ele está melhor?”, como se estivessem por dentro do estado de saúde do vizinho com quem nunca fala…
         É verdade, médico de família conhece os muitos elementos de uma família, de muitas famílias vizinhas e não pode cair nas armadilhas linguísticas que os doentes lhes tentam impregnar sobre os filhos, os pais, os conjugues, os vizinhos até… Médico de família ouve muitas versões da mesma história e não pode desmenti-las, nem comenta-las como se soubesse mais do que a pessoa lhe está ali naquela momento a contar…

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Crónicas e Reflexões de uma Interna em MGF - A Nova Geração




         Pirâmides etárias são gráficos que que representam a população de acordo com as idades e os sexos de uma determinada amostra. O conceito é simples: a base representa a taxa de natalidade, a parte intermédia a população adulta e por fim, o ápice dá-nos a expectativa de vida e a população idosa. Uma população jovem tem, como se compreende, uma base larga e um ápice estreito. Portugal está a ficar longe dessa ideal situação. Segundo as previsões do Instituto Nacional de Estatística, em 2050 cerca de 80% da população portuguesa estará envelhecida e dependente.
         Quase não seria necessário fazer-se inquéritos sobre a demografia nacional, bastaria consultar a agenda dos médicos de família para cada semana. Eu estive 3 meses no centro de saúde e nunca assisti a nenhuma consulta pré-concepcional. Pode ter sido azar, claro, mas se fossem muitas seria mais difícil não assistir a pelo menos algumas, não? Onde estão os casais prontos a ter filhos? Onde está a vontade e a disponibilidade económica para construir uma família? Onde estão as mulheres que não querem ter só um filho, e só aos 40?
         Consultas de saúde materna também se podiam contar pelos dedos de uma só mão. O horário está lá reservado, às quintas-feiras de manhã, à espera desesperadamente que venham as senhoras de barriguinha, mas nada… O que acontece então é que esse horário acaba por ser preenchido pelas consultas mais requisitadas – doenças crónicas: diabetes, hipertensão - que atingem maioritariamente a faixa etária acima dos 60-70 anos… Parece uma “pescadinha de rabo na boca”, como diz o povo, um ciclo viciante.
         Como jovem médica, o que me parece é que há uma estreita ligação entre a realidade da saúde materna e a da saúde infantil, ou seja, entre a carência de gravidezes e educação centralizada nas necessidades materiais das crianças.
         Já ouvi casais falarem que “a vida está muito complicada, não podemos ter filhos…eles hoje em dia precisam de tudo.” O desemprego é infelizmente uma realidade portuguesa e quanto a isso, nada a acrescentar, e há de facto pelo Portugal fora centenas de famílias que não podem ter filhos . Mas depois temos aquelas outras famílias, muitas por sinal, que têm estabilidade económica e falam da mesma forma. Serão os filhos que precisam de tudo mesmo, ou quererão os pais dar-lhes tudo? A ideia que tenho é que hoje em dia as pessoas querem ter só um filho, mas “que nada lhe falte”. Este pequeno pormenor é a chave de toda a alteração. Surgem então as famílias com apenas um descendente, ao qual dão tudo quanto podem e lhes transmitem, sem saberem ou sem parecerem ligar, a ilusória e destruidora educação que a vida é assim mesmo – pode ter-se tudo.
         Esta minha opinião não é infundada em ideias vagas, tenho imensos exemplos reais, só falando nestes 3 meses de estágio, e em todas as etapas de vida. Há casais que se queixam que têm “pequenos ditadores” em casa, que aos 2 anos já decidem a sua pequena vida mais do que os seus pais, desde o que comem ao que vestem, com as birras com as quais hoje em dia os pais dia não sabem lidar. Ainda há poucos dias vi uma mãe rir-se orgulhosamente da birrinha que a filha de 3 anos fazia no consultório e a incentivava: “Tu hoje não queres fazer isto pois não? Prontos, ela hoje não quer…”, enquanto a abraçava e mimava. Depois vem as terríveis histórias dos filhos já homens que com 20 anos não querem estudar nem trabalhar, maltratam os mais velhos verbalmente, e de quem os pais já não conseguem nada, nem autoridade, nem educação, nem respeito.
         É difícil educar devidamente, é necessário ser-se presente, forte, convicto e equilibrado. E depois das muitas histórias de filhos e pais que ouvi e das muitas consultas de saúde infantil que fiz, creio ser impossível não refletir sobre o assunto... Talvez o médico de família possa ter uma posição de destaque no amadurecimento da nova geração de pais e filhos e na orientação dos mesmos, através de exemplos e explicações científicas, e como alerta para os sinais da necessidade de uma intervenção mais especializada. Talvez seja fundamental toda a sociedade refletir em questões mais filosóficas mas extremamente oportunas, que parecem esquecidas, como: “o que faz realmente falta a uma criança?”, “onde fica a noção de partilha entre irmãos?”, “como educar para que os filhos tenham respeito ao dinheiro, trabalho e sacrifício dos pais?”.

terça-feira, 31 de março de 2015

Crónicas e Reflexões de uma Interna em MGF - Somos jovens: somos de Confiança? -


         Há sempre pessoas com quem sentimos mais empatia. Aquela era uma senhora de 80 anos, independente para as suas atividades da vida diária, extremamente atenciosa, que eu adorava receber nas consultas de vigilância. De mês a mês lá vinha ela, toda bonita e sorridente, saber se se tinha comportado bem e o seu INR estaria ou não bem.
         Certo dia fui eu quem fez a consulta, sozinha:
         “Bom dia, Sra. Ana, faça o favor de entrar e de estar à vontade.” – Introduzi eu. Ela cumprimentou-me e sentou-se devagar, porque a idade não perdoa a partir de certa altura.
         “Hoje serei eu a fazer-lhe a consulta, se não se incomodar com isso.”
         “Não, claro que não!” – já a preparar o dedo para a picadinha. E depois continuou: “Sabe doutora, há pessoas que não gostam de ser atendidas por médicos mais jovens, porque dizem que não sabem nada. Eu acho isso uma estupidez, desculpe-me a palavra. Eu confio plenamente na doutora, porque se aí está é porque sabe o que está a fazer.”
         Foi a primeira vez que alguém me dizia de forma tão direta o que todos nós sabemos. Não é por acaso que o meu marido deixou crescer barba desde que entrou na faculdade de Medicina e nunca mais a cortou por completo. Diz que se o fizer, os doentes não confiam nele. E não é por acaso que se nota um esforço de transformação, de crescimento, das médicas quando começam a trabalhar. Até as que dantes não ligavam nada ao que vestiam e à forma como apareciam na faculdade, começam a usar um pouco de base na cara e uma sombrazinha. Aquela senhora tocou em questões bem pertinentes – seremos nós preparados o suficiente nos tempos de estudo para o que de facto se passa numa consulta? Não, autonomia não se aprende na faculdade nem sou a favor dela logo após o seu término. A nossa imagem é importante para demonstrarmos aos outros que sabemos o que fazemos? Claro que sim! Confiaríamos da mesma forma num advogado que em vez do fato e gravata usasse calças de ganga rasgadas e uma T-shirt decotada e de manga cava a mostrar a enorme tatuagem de uma caveira no deltóide? São claro juízos de valor, mas todos os nós os fazemos, todos os dias.
         Naquela consulta de vigilância de INR eu de facto sabia o que estava a fazer, e sabia o que teria de alterar e como caso o resultado não estivesse dentro dos parâmetros objetivados. Naquela consulta eu podia e fui realmente autónoma. Acho que o mais importante é ter noção de si mesmo. Alguém que se dedica demasiado à vontade de parecer melhor do que o que realmente é, ilude-se. Pedir ajuda, parar quando não se sabe qual o é o próximo passo, perguntar como e porquê – aquilo a que se resumo a ser humilde – parece-me a melhor forma de se evoluir.
         Confiança é algo que o doente jamais poderá deixar de sentir numa relação médico-doente. Como poderá o doente seguir a medicação prescrita se não estiver devidamente esclarecido, se não confiar que aquele médico sabe o que está a fazer? Muitas foram as vezes que assisti a pessoas virem ao consultório dizer que foram à consulta desta ou daquela especialidade, ou foram à urgência do hospital, e que lhes foi prescrito isto ou aquilo. Mostram as receitas ainda por comprar ao seu Médico de Família e depois perguntam: “Isso está bem?” Será que as pessoas são sempre e todas elas desconfiadas, porque a mãe natureza achou que a desconfiança era uma excelente proteção, ou serão os médicos, especialmente os mais jovens, que não sabem transmitir essa tão grande necessidade – confiança?

sexta-feira, 27 de março de 2015

Crónicas e Reflexões de uma Interna em MGF - Os Médicos da Comunidade

(NOTA: Todos os relatos aqui referidos são baseadas em factos reais. Para preservar a identidade das pessoas às quais me refiro, alterei os seus dados biográficos.)


Basta deixar-nos perder pelas ruas menos populosas e mais distantes do centro da cidade e encontramos uma nova realidade. Não parece a mesma, não parece sequer o Portugal dos castelos turísticos. Ali as casas são tijolos sem revestimento, a comida é feita na lareira para se economizar mais um pouco de gás, e a minúscula sala de estar, se assim se poder descrever, é agora o quarto do doente acamado. Cheira a fumaça.
Também as pessoas são diferentes das que se vê na cidade. São mais humildes, mais gratas, e fazem questão de oferecer as laranjas que estão a cair ao chão pelo excesso que brotou da árvore, pois afinal, “estragar é pecado”.
Quando entramos vê-se no rosto daquele casal um misto de gratidão e vergonha por ali estarmos. Eu sou afinal de contas, e apesar de ser devidamente apresentada como a Interna que está a acompanhar o médico, uma anónima em sua casa. O seu médico de família não, não é um desconhecido. Aqui o médico é a pessoa que sabe já de cor onde moram e já não se admira com a falta de condições, embora sempre o impressione. Nos domicílios ou no Centro de Saúde, se a doença alivia um pouco e os deixa sair de casa, o ambiente em que se encontram é sempre já familiar, e não as urgências ou um consultório impessoal do hospital.
É claro que os médicos estão a fazer o seu trabalho, e como tal ganham também por fazer domicílios, mas gosto da ideia romantizada de que é impossível não fundir um pouco o trabalho propriamente dito com um toque especial de humanidade. São os velhinhos quem mais necessita e aprecia a visita e cuidados do médico, e no meio da solidão ou da pobreza que muitas vezes se associam, uma cara conhecida, as explicações repetidas com muita calma, faz a diferença. Gosto de pensar que mais que um emprego ou pelo trabalho, há uma missão, e que essa missão melhora, nem que seja um pouco, o mundo e a vida das pessoas.

terça-feira, 10 de março de 2015

"Que decidiste?"

Falava-se que os internos este ano não poderiam desistir do ano comum para voltar a repetir exame até Junho, como ocorrera noutros anos, e teriamos até Fevereiro para tomar essa decisão. Negociações para lá e mais negociações para cá, reuniões e mais reuniõezinhas com o Ministério da Saúde, a Ordem dos Médicos, etc e parece que tudo fica como estava para mim. Portanto ainda vou a tempo se quiser voltar a estudar (o sonho de qualquer estudante de medicina é estudar o harrison não uma, mas duas vezes! =/ ) Ser médico em Portugal está cada vez mais complicado. Há imensos colegas que preferem trabalhar no privado, em deterimento das más condições do público, já para não falar dos muitos que emigram para outros países da europa para fazer a especialidade. Agora que gozei férias, se tivesse de estudar de novo para o Harrison para tentar de novo Ginecologia, seria capaz. Mas mais do que ser impulsivos e só querer seguir numa determinada linha, hoje em dia é preciso ser-se inteligente na escolha da especialidade. É o conselho que mais ouço, quase diariamente, das mais diferentes pessoas (desde colegas mais velhos, outros funcionários públicos, ou até mesmo doentes bem informados). Por isso desistir do Ano Comum não é a minha primeira opção...Creio que irei fazer este ano e escolher outra especialidade. Qual? Esse é o problema número dois. Em Abril vou fazer estágio de Psiquiatria para Aveiro e vai ser o ponto que me faltava para a decisão final.

quarta-feira, 4 de março de 2015

"o Ano Comum é o melhor ano para casar"

Ao longo dos anos, e de forma mais intensa no 6º ano e quando estamos a estudar para o Harrison, os colegas mais velhos fazem-nos acreditar que o esforço compensa, que vamos adorar estar no Ano Comum, "que é o melhor ano das nossas vidas". Agora que cá estou, confirmo. Temos responsabilidade na dose certa para quem está a começar, uma asa protectora sempre por trás das nossas decisões clínicas. Como tenho estado no centro de saúde, noto mais isso nas consultas em que a minha tutora que deixa fazer sozinha a entrevista, exame físico e até a prescrição (e aqui eu paro sempre, à espera de aprovação antes de mandar imprimir as receitas). Outra coisa que sempre ouvi falar é que este ano era o melhor ano para se casar, porque havia mais tempo para a organização dos ditos preparativos, não há problemas em parar o internato para se gozar as férias, etc. Pois bem, posso dizer também por experiência própria que é verdade! Casei há pouco mais de 2 semanas! (Isto também serve de mais um exemplo, que eu faço questão de salientar, de que os estudantes de medicina têm efetivamente vida social, têm namorados(as) e também se casam! Fantástico!) E eis que tive as férias merecidas, pelas quais aguardava já desde os tempos em que estava a estudar para o Harrison...

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Primeiro ordenado!

Após muitos e muitos anos a estudar, e concluído o primeiro mês de trabalho, eis que aparece a mais recente novidade da minha vida profissional - o meu primeiro ordenado! Enfiar a cabeça nos livros afincadamente ou, se quiserem, trabalhar à nossa maneira, começa a ser natural. Tirar uma boa nota num exame, ou ainda melhor, saber o que fazer perante uma determinado caso clínico nas aulas práticas da faculdade, são as recompensas que vamos tendo. A isto, para os felizardos claro, junta-se o orgulho da família e o seu incondicional apoio, que são formas diferentes e igualmente importantes de reconhecimento. Basta que não nos peçam o que não podemos dar e já nos ajudam tanto... Mas tudo tem de virar, e todos nós precisamos de crescer, passar ao passo seguinte. Receber o meu ordenado foi o que isso significou para mim - andar em frente! Foi a formação de mais um pouquinho da médica independente a aparecer. Garanto-vos que soube muito bem (e estou a falar puramente de significados emocionais, não do valor em euros). Comemoração: enchi a barriga com um grande waffle nessa tarde!